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“Têm certos dias em que eu penso em minha gente, e sinto assim todo o meu peito se apertar, porque parece que acontece de repente...”
E de repente não muito distante... países brigam para achar o(s) culpado(s) pelos altos preços dos alimentos que estão gerando uma crise alimentar. Um joga a culpa no outro. “É a culpa do Etanol” grita um representante sentado lá atrás. “Não! A culpa é do petróleo!” rebate o senhor do outro lado. Aí começa a discussão.
Enquanto isso, no nordeste brasileiro crianças morrem desnutridas, com fome. No Piauí de cada 100 crianças que nascem 78 morrem antes de completar oito anos de idade. De cada mil crianças nordestinas nascidas vivas, 20 morrem no primeiro ano de vida, e 50% dessas crianças morrem ainda no primeiro dia de vida. Essas estatísticas se traduzem em outro dado: a mortalidade infantil no Norte e Nordeste é o dobro da mortalidade no Sul do país.
E no calor, não da temperatura que mata do outro lado mundo, no calor da discussão, autoridades políticas que dizem representar nações desenvolvidas buscam um culpado, quando na realidade todos são. É por isso que o mundo não vai pra frente.
São dados como esses: “Todos os anos 11 milhões de bebês morrem de causas diversas. É um número escandaloso, mas que vem caindo desde 1980, quando as mortes somavam 15 milhões”, que mancham a história que o homem vem escrevendo.
Numa Conferência que aconteceu essa semana em Roma, membros da ONU e representantes de países, falaram que essa crise na alimentação pode afetar a paz mundial. Como eles ainda esperam que haja paz no mundo com as pessoas passando fome, necessidades, vendo crianças chorarem por não terem um grão para enganar a fome? Essa paz é ilusória! Ela não vai vim com os alimentos, ela só vai vim com a consciência de cada um.
Os indicadores de mortalidade infantil falam por si, mas o caminho para se atingir o objetivo dependerá de muitos e variados meios, recursos, políticas e programas, dirigidos não só às crianças, mas a suas famílias e comunidades também.
E no meio disso tudo, brasileiros, americanos, europeus, japoneses, africanos, nós, mundanos, esperamos que essa gente um dia consiga viver com dignidade.
Bianca Teixeira

As armas são de brinquedos. A maconha é de eucalipto. O pó, de algum bagulho parecido com talco. A brincadeira das crianças das favelas é baseada no mundo que elas vêem todos os dias: o tráfico. “Pó de dez, pó de dez”, eles anunciam na boca de fumo de mentirinha. Tem a turma do arrego, que recebe o suborno para não denunciar nem prender o bando de traficantes fictícios. Logo depois, eles capturam o X-9, que entregou os amigos para a quadrilha rival. O vacilão está pronto para ser executado, quando a turma de garotos, de 11 a 14 anos, ouve a rajada de tiros ali do lado. Agora não era de brincadeira, a execução era real.
O tráfico de drogas possui influência nas favelas e, conseqüentemente, na vida dos jovens e crianças que convivem nesse ambiente hostil.
Entre 1998 e 2006, o rap brasileiro MV Bill e seu empresário Celso Athayde em parceria com o Centro Audiovisual da Central Única das Favelas (CUF) realizou uma pesquisa nas favelas brasileiras a fim de buscar dados e depoimentos sobre adolescentes menores de 18 anos, que tiveram suas identidades preservadas, que se inserem no tráfico cada vez mais cedo.
O perfil dos jovens desse mundo é quase, que em sua maioria, unânime. São meninos que trabalham com o intuito de ajudar a mãe que foi abandonada pelo companheiro. Facilidade de conseguir dinheiro para comprar roupas de grifes, sustentar o próprio vício, freqüentar bailes funks ou até mesmo o fascínio pelas armas de fogo são outros fatores apontados para a entrada no tráfico. Segundo os entrevistados, as armas dão prestígio, já que dessa forma são respeitados e ao mesmo tempo se sentem protegidos. Para eles, é um instrumento de poder portar um fuzil ou uma pistola. Há toda uma organização que ronda a distribuição da carga.
O tráfico organizado começa com a droga que vem de fora do país e vai direto para as favelas, onde é empacotada e pesada para a venda. Em seguida, o “vapor” (meninos responsáveis pela venda a varejo) segue para um lugar estratégico (boca de fumo) para esperar os “clientes”. Esse mercado dura o dia inteiro, mais precisamente na madrugada, quando a movimentação é menor. Para manter a segurança do comércio, o fiel (chefe do tráfico na favela) contrata os chamados: falcões.
O falcão é o jovem que vigia e toma conta da favela durante a noite toda. Mas se este dormir? A resposta vem no depoimento de um deles: “Sou usuário de cocaína e tenho de usar a cocaína para não dormir. Mas não sou viciado não. Se eu quiser falar assim pára, eu paro. Eu vou cheirar pra não vim algum amigo e me pegar dormindo na atividade pra ó... morrer”.
Quando há algo estranho nas favelas, presença de inimigos, que na gíria deles é conhecido como “alemão’’, ou presença de policiais é escutado o barulho de um foguete 12x1, que é lançado por um fogueteiro, com o objetivo de avisar os demais companheiros. Ao ouvir o estrondo pode ter a certeza que de que haverá uma guerra civil.
“Se acabar o crime, acaba a polícia”, dizem eles, fazendo alusão ao recebimento de propinas por parte de policiais. Segundo informações, o acordo com a polícia varia de 300 a 1.000 reais.
Tem traficante que não fuma, não cheira e nem bebe, e chegam a entender que não deveriam estar lá, no morro, culpam o governo pela má distribuição de renda e queriam saber para onde vai o dinheiro do Brasil. Alguns se questionam o pouco estudo e indagam o porquê de nunca terem tido acesso a uma escola, acham que são discriminados por isso e que seu único meio de sobreviver é a venda de drogas.
“Meu sonho é conhecer um circo”, diz um dos meninos. A realidade dessas crianças parte de pequenas perguntas que até tem respostas, mas são encobertas. São meninos e meninas que possuem sonhos, buscam divertimentos e que anseiam aquilo que todos, criança ou adulto, merecem ter para viver com dignidade: educação, saúde, emprego, alimentação e lazer.
O tráfico de drogas é um problema social que já faz parte da história do Brasil e, hoje em dia, de diversas famílias. Homens, mulheres, crianças que não fazem parte de estatística, talvez só façam quando morrem. Tudo o que estes brasileiros querem é oportunidade para mudar de vida.
Para Betinho, 23, ex-presidiário e traficante, o futuro de quem está nessa vida só pode ser de três maneiras: a morte, a cadeia ou uma cadeira de rodas. “A criminalidade não acabaria, mas melhoraria se o salário fosse digno”, completa.
Em apenas 3 meses, 14 garotos foram mortos nos tiroteios constantes da favela. Foram sonhos interrompidos para satisfazer uma necessidade: se sentir parte de uma sociedade. Eram crianças que tinham que sonhar acordadas, porque caso dormissem, não acordariam jamais. Como se diz no morro: lá o ritmo é chapa quente.
Bianca Teixeira
Ela é engraçada. Você leitor deste querido blog já deve ter feito esse comentário: a vida é engraçada!
Ela é sempre assim, cheia de surpresas, te guarda momentos que você nunca imagina, te põe dentro de cenas de novelas e filmes, você por muitas vezes se sente a estrela. Ai depois parece que ela lhe tira tudinho.
De um tempo pra cá venho sendo presenteada por essa tal de vida. Não vou dizer que só são presentes feios que não me agradam nem um pouco, eu até tenho recebido uns presentes bonitos, legais e que me fazem bem. E ah, claro, alguns presentes com alguns defeitinhos que parece que a espertinha da vida me deu sabendo que teria que endireitar depois de aberta.
Mas quem disse que eu me intimidei? Eu quero mais é ganhar presentes!
Pode me dar de todos os tamanhos, cores, formatos, com defeito ou perfeito, eu sempre vou dar meu jeito e tratar a embalagem com todo o carinho.
Nesses dezenove anos, acho que vale a pena parar um pouquinho agora e agradecer à vida pelos presentes e lembranças que ela vem me dando nesses anos todos. Sabia que são graças a eles que hoje sou acostumada com um monte de coisa, graças a eles que hoje sei lutar, brigar, rasgar e até embalar de novo se for preciso? Presente a gente não escolhe, aprende a gostar. E tenho certeza, que esses são os mais valorizados, já que eles partem do zero e atingem o máximo numa vida.
Tudo isso é apenas engraçado.
Bianca Teixeira