04.11.08
Com quantos brasis se faz um Brasil?
Afinal de contas, o que é o Brasil? A sociedade brasileira não pode ser entendida de modo unitário, na base de uma só causa ou de um só principio social. Para compreender é preciso estabelecer uma distinção radical entre um “brasil” e o “Brasil”. O escrito com minúscula é nome de um tipo de madeira de lei ou de uma feitoria, um conjunto de raças, que, misturadas ao sabor de uma natureza exuberante e um clima tropical, estariam fadadas à degeneração e à morte. Já com “B” maiúsculo resepresenta o país, a cultura e o local geográfico. O território de reconhecimento internacional. Brasil que é também lar, memória e consciência de um lugar com o qual se tem uma ligação especial, única e, muitas vezes, sagrada.
O melhor modo de interpretá-lo seria destacando esferas, domínios e espaços sociais demarcadores de sua sociabilidade. Não se pode compreender o Brasil apenas pela casa-grande ou pela vida em família, como ele também não pode ser lido apenas pelo universo da economia, das leis e do seu mundo público em geral.
O povo brasileiro, marcado pela hierarquia e habituado a lidar com verticalidades, reconhece a existência de modos fortes e fracos de comunicação com os outros mundos, principalmente, os de esferas espirituais.
A ligação religiosa do nosso país é uma linguagem de relação. Uma espécia de idioma que busca o meio termo, o meio-caminho, a possibilidade de salvar todo o mundo, e em todos os lugares, encontrar alguma coisa boa e digna.
Idioma demarcados por igrejas, capelas, terreiros, centros espíritas, sinagogas, caboclos e entidades amazônicas e tudo aquilo que pertence e sinaliza as fronteiras entre o mundo em que vivemos e plano superior do qual acreditamos. O universo é habitado por mortos, fantasmas, almas, santos, anjos, orixás, deuses, Deus, a Virgem Maria e Jesus Cristo, para onde todos vão e de onde ninguém retorna... ou pelo menos não com facilidade.
Visto deste modo, o Brasil é conhecido e misterioso, tal como ocorre com as almas do outro mundo. Os deuses que estão em todos os lugares, embora poderosos, precisam da crença dos homens para que possam ser superiores e onipotentes.
No fundo, trata-se de muitos “Brasis”. Tanto os que se definem pelas instituições formais, quanto ao país do “jeitinho”, da comida, religião, das relações étnicas, da mulher, do futebol, da caipirinha, do samba.
Tom Jobim dizia, com justa razão, que o “Brasil não era para principiantes”. Os ingênuos acham que ele pode ser reduzido a apenas uma de suas dimensões quando, de fato, nossa sociedade é muito mais complexa, requerendo uma orquestração de muitos domínios para ser mais bem entendida.
-
criado por Bianca Teixeira
11:01:08